DA ÂNFORA AO GRAND CRU
Oito mil anos de vinho — das origens do Cáucaso às Bodas de Caná, do Grand Cru ao desafio climático
Dra. Mara Rute Lima Hercelin
Trecho da aula Magna

Antes de começarmos, quero que observem numa coisa. Hoje vamos passar o dia inteiro à volta de uma única bebida. Uma bebida que, do ponto de vista biológico, é um acidente: sumo de uva que fermentou. As leveduras que estavam na película do bago consumiram o açúcar e transformaram-no em álcool. Isto acontece sozinho, sem ninguém. Aconteceu milhões de vezes antes de existir um único ser humano para reparar. Porque, como escreveu Lavoisier no Tratado Elementar de Química, em 1789, nada se cria: há a mesma quantidade de matéria antes e depois da operação. Tudo se transforma.
Mas este encontro é, antes de tudo, um exercício sobre o olhar. E aqui deixo-vos Saramago, na epígrafe do Ensaio sobre a Cegueira: se podes olhar, vê; se podes ver, repara. Saramago atribui a frase a um Livro dos Conselhos que nunca existiu — inventou a fonte para dizer uma verdade. Guardem isso, porque é exatamente o que a pintura faz.
O que muda tudo, portanto, não é a fermentação. É o dia em que alguém reparou. E, mais do que isso, o dia em que alguém decidiu que aquilo não podia ficar entregue ao acaso — que ia plantar a videira, escolher a uva, guardar o líquido num recipiente, dar-lhe um nome e um lugar. Nesse dia nasce qualquer coisa que já não é agricultura. É cultura.
O fio que vamos seguir hoje é este: como é que um acidente biológico se torna, sucessivamente, um bem religioso, um bem político, um bem econômico e, por fim, uma obra de arte com nome próprio, ano de nascimento e preço de leilão. E como é que essa construção de oito mil anos está agora posta em xeque por qualquer coisa que nenhum dos protagonistas desta história previu: um clima que está mudando mais depressa do que a videira consegue acompanhar.
O nosso encontro terá três momentos. De manhã, aqui. À tarde, na Cité du Vin, vocês vão ver com os olhos aquilo que eu contei com palavras. E ao fim do dia, no oitavo piso, com Bordeaux aos nossos pés, fazemos a única coisa que falta: provar.
Para mim é importante que entendam, desde já, que este não é um encontro com um produto de luxo, como muitos pensam. É o contrário. O que me interessa hoje é reaproximar as pessoas de um líquido que ocupa, na nossa memória, um lugar muito anterior ao preço.
Deixem-me dizê-lo pela minha própria memória.
Quando era criança, ajudava a minha mãe e algumas senhoras da igreja a encher os pequenos copos da Santa Ceia. Sumo de uva. E um pedaço de pão ázimo. Lembro-me do gesto de encher, um a um, com cuidado para não entornar. E lembro-me de, mais tarde, já jovem e sozinha, beber aquele sumo e comer aquele pão como quem procura, através de um contato material, um contato que não era material. Era a frase que ficava: Eu sou a videira verdadeira — João, Cap.15.V.1.
E reparem no que Ele diz. Não diz “eu sou o vinho”. Diz videira. A planta, não o produto. Aquilo que tem raiz, que precisa de tempo, que é podado para dar mais, e que só dá fruto se ficar ligado ao ramo.
Ora, o que eu vos peço é isto. Antes de eu vos contar oito mil anos de história, procurem nas vossas próprias memórias. Porque cada um de vós tem uma. Pode ser a mesma taça da Santa Ceia. Pode ser a garrafa que só se abria quando alguém chegava de longe. Pode ser o cheiro de um lagar, ou de uma adega de família, ou de uma cozinha ao domingo. Pode ser o primeiro copo que vos deixaram provar, com água, à mesa, ainda em criança — como faziam os gregos. Pode ser um brinde num casamento. Pode ser o copo que ficou por beber numa mesa onde já falta alguém.
Encontraram?
Então já perceberam a aula toda. Porque nenhuma dessas memórias é sobre a bebida. São todas sobre pessoas à volta de uma mesa.
E é por isso que o primeiro milagre do cristianismo não é uma cura nem uma ressurreição. É água que se torna vinho, num casamento em Caná da Galileia, porque o vinho acabou a meio da festa — João Cap.2. Está pintado numa tela de quase 68 m, de Veronese, que eu vejo quase todos os dias no Louvre, na sala 711. 130 pessoas a comer e a beber, e quase nenhuma delas a perceber que está dentro de um milagre.
Nós, hoje, vamos fazer esse percurso para entender o que temos no copo e carregar para as próximas gerações novas formas de produzir essa bebida sacro política.
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