O minuto que falta
O que aprendemos quando paramos de fotografar o Louvre e voltamos a olhá-lo
Há um gesto que se repete milhares de vezes por dia na Sala 711 do Louvre e que ninguém mais percebe, de tão natural que se tornou: o braço que sobe, o celular que se interpõe entre os olhos e o quadro, o estalo surdo do obturador. Em seguida, a pessoa se vira e vai embora. O tempo total da operação, do levantar do braço ao dar as costas, raramente ultrapassa quinze segundos.
Quinze segundos. Veronese levou quinze meses.
Foi dessa desproporção que nasceu a visita que conduzimos na sexta-feira, 18 de setembro, na abertura das Journées européennes du patrimoine. O tema nacional deste ano é o patrimônio da fotografia, escolhido para celebrar os dois séculos das primeiras imagens fixadas por Nicéphore Niépce. Parecia, à primeira vista, um tema estrangeiro a um museu cujas coleções de pintura se interrompem quase onde a fotografia começa. Era o contrário: não há lugar melhor do que o Louvre para entender o que a fotografia fez conosco, justamente porque quase tudo ali foi feito antes dela.
A economia do tempo

Comecemos pelos números, porque eles contam uma história que nenhum argumento substitui.
As Bodas de Caná foram encomendadas a Paolo Veronese em 6 de junho de 1562 pelos monges beneditinos de San Giorgio Maggiore, em Veneza, para cobrir a parede do refeitório que Palladio acabava de reconstruir. O contrato é um documento delicioso: 324 ducados, a manutenção do pintor, as refeições à mesa dos monges e um barril de vinho — para quem ia pintar o milagre da água transformada em vinho. Ajudado pelo irmão Benedetto, Veronese entregou a tela em setembro de 1563. Quinze meses de trabalho para fixar um instante: o momento em que o vinho é servido.
Do outro lado da mesma sala, a Joconde. Leonardo começou o retrato por volta de 1503, nunca o entregou a quem o encomendara, continuou a retocá-lo durante mais de uma década e o levou consigo para a França, onde morreu em 1519.
O Sacre de Napoléon, algumas salas adiante, documenta uma cerimônia de poucas horas, ocorrida em 2 de dezembro de 1804. Jacques-Louis David começou a tela em 21 de dezembro de 1805, num ateliê instalado na antiga igreja do colégio de Cluny, deu-a por terminada em novembro de 1807 e ainda a retocou no início de 1808.
Agora o outro prato da balança. A primeira imagem de Niépce, feita por volta de 1827 da janela da sua propriedade perto de Chalon-sur-Saône e hoje conservada no Harry Ransom Center, no Texas, exigiu horas, talvez dias inteiros de luz. O daguerreótipo apresentado por François Arago em 1839, no Institut de France — que fica ali, do outro lado do Pont des Arts —, reduziu a exposição a alguns minutos de imobilidade absoluta. O telefone que o leitor tem no bolso faz o mesmo trabalho numa fração de segundo.
Em menos de dois séculos, o custo de produzir uma imagem caiu a praticamente zero. É uma das maiores revoluções técnicas da história, e nós a atravessamos sem nunca nos perguntarmos o que ela cobrou de nós em troca.
O que a ciência diz sobre o braço levantado

A pergunta tem resposta experimental. Em 2014, a psicóloga Linda Henkel publicou na Psychological Science um estudo conduzido dentro de um museu de arte. Os visitantes que fotografavam as obras lembravam-se delas pior do que os que apenas as observavam. Havia uma exceção decisiva: quem fotografava um detalhe escolhido, aproximando-se de propósito, lembrava-se melhor do que todos os outros.
Não é a câmera que apaga a memória. É a delegação. Fotografar sem escolher é dizer ao aparelho: guarde isto por mim, eu vejo depois. E o depois, como se sabe, não chega nunca.
Daí a regra que propusemos ao grupo e que estruturou toda a visita: diante de cada obra, um minuto inteiro de silêncio, apenas olhando. Depois, uma única fotografia, de um detalhe que mais ninguém tivesse notado. No fim, cada um mostraria a sua imagem e explicaria a escolha.
Um minuto é pouco. Vivido de pé, numa sala cheia, é longuíssimo. Nos primeiros vinte segundos o grupo ainda se mexia. Aos quarenta, começou a encontrar coisas: a ampulheta sobre a mesa do banquete, os cães entre os convidados, os músicos no centro, os pássaros no céu veneziano. Aos sessenta, ninguém queria parar.
A fotografia já estava dentro do museu

É aqui que a visita se torna aquilo que ninguém espera aprender no Louvre. Na Sala 700, diante da Jangada da Medusa, o rapaz deitado de bruços no centro do primeiro plano não é um anônimo: é Eugène Delacroix, então com vinte anos, que posou para Géricault entre 1818 e 1819. E foi esse mesmo Delacroix que, no verão de 1854, organizou com o amigo Eugène Durieu sessões de fotografia de modelos, cujo álbum está hoje na Bibliothèque nationale de France. O Louvre conserva, no departamento de Artes Gráficas, um desenho feito por Delacroix a partir de uma dessas fotografias.
A fotografia, portanto, não esperou do lado de fora. Entrou pela porta dos ateliês, discretamente, enquanto os críticos discutiam se ela era ou não uma arte.
Vale desmontar aqui uma frase que circula há quase dois séculos. Diz-se que o pintor Paul Delaroche, diante do daguerreótipo, teria declarado em 1839 que “a pintura estava morta”. É uma frase magnífica e provavelmente apócrifa, como observa Dominique de Font-Réaulx, conservadora-geral do Louvre, autora de Peinture et photographie, les enjeux d’une rencontre e hoje presidente do conselho científico do Bicentenário da Fotografia. Sobretudo, a profecia errou. Pintura e fotografia não se mataram: observaram-se, imitaram-se e se alimentaram ao longo de todo o século XIX.
Fotografar para salvar

Há uma última coisa que a fotografia fez, e que liga o tema deste ano ao tema europeu das mesmas Journées, o patrimônio em perigo.
Em 1851, a Commission des monuments historiques lançou a Mission héliographique: cinco fotógrafos, entre eles Édouard Baldus, Gustave Le Gray e Henri Le Secq, percorreram a França para registrar igrejas, castelos e pontes que precisavam de restauração. A fotografia e a noção moderna de monumento histórico nasceram praticamente juntas, na mesma metade de século. Cento e setenta anos depois, quando Notre-Dame ardeu em abril de 2019, foram levantamentos a laser e fotografias de alta precisão que permitiram reconstruí-la.
E uma fotografia pode mudar o curso da história. As imagens do vale de Yosemite feitas por Carleton Watkins circularam em Washington e pesaram na lei assinada por Abraham Lincoln em 30 de junho de 1864, que protegeu o vale — primeiro passo daquilo que se tornaria a ideia de parque nacional. Antes de existirem parques nacionais, existiram fotografias deles.
O minuto que falta
No fim da visita, cada participante mostrou a sua imagem. Diante das mesmas obras, nas mesmas salas, no mesmo dia, ninguém havia fotografado a mesma coisa. Uma mão. Um horizonte. Um cão sob a mesa do banquete. Foi o momento mais bonito do dia, e também o mais demonstrativo: a escolha do detalhe é um autorretrato involuntário de quem olha.
Saímos pelo jardim das Tulherias até o Jeu de Paume, para ver a retrospectiva de Madeleine de Sinéty, fotógrafa que usou a câmera precisamente para guardar o rastro de mundos em vias de desaparecer. Era o fecho exato de um dia dedicado ao patrimônio.
A conclusão que levamos dali não é que se deva parar de fotografar o Louvre. É mais simples e mais exigente. Entre o braço que sobe e o estalo do obturador, falta um minuto. Um minuto apenas, em que nada acontece e tudo começa. Veronese olhou o seu banquete durante quinze meses. Podemos, pelo menos, olhar durante sessenta segundos antes de clicar.
As visitas e conferências de O Louvre Nosso de Cada Dia são conduzidas em português pela Dra. Mara Rute Lima Hercelin, historiadora da arte e guia-conferencista.